A Alta Costura Parisiense : um século de moda

Acabamos de retratar o panorama geral acerca do surgimento da

moda, mas podemos dizer que foi somente na segunda metade do séc XIX

que a moda instalou-se por total. Claro que nem tudo era completamente

novo, apenas os sistemas de produção e de difusão eram desconhecidos atégordon-parks-lady-modeling-a-shoulder-lei-of-natural-red-fox-selling-for-1652

então. A moda não escapou de uma estrutura de longa duração. Estrutura

que se articulou em torno de duas novas indústrias: A Alta Costura e a

confecção industrial. Esse sistema, apesar de bipolar, formou uma

configuração unitária e homogênea na história das produções da moda. Viase

uma criação luxuosa e sob medida, característica da Alta costura em

oposição às imitações baratas e em série. Vale destacar que esse sistema

durou cerca de cem anos, constituindo, talvez, o período áureo da história da

moda moderna.

A confecção industrial impulsionava a Alta costura. Desde os anos

1820-1840, instalou-se na França um verdadeiro boom de roupas novas e

baratas produzidas em série. Com a entrada na era da mecanização e a

introdução da máquina de costura em 1860, as técnicas progrediram, os

custos diminuíram e a confecção diversificou seus artigos. A Moda podia

agora se dirigir também à pequena e média burguesia. Mas foi somente em

1857-1858 que aconteceu uma revolução no processo de criação, quando

Charles-Fréderic Worth fundou em Paris, na sua própria casa, a primeira

nina-leen-jeweled-stay-put-cocktail-hat-at-reckless-anglelinhagem da Alta Costura. A partir dessa iniciativa, a moda tornou-se uma

empresa não só de criação como de espetáculo publicitário. Worth começou

a usar sua mulher como manequim viva para expor seus modelos. Surgiu

assim o conceito de manequins conhecidos na época como “sósias”. Depois

de Worth, dezenas de casas apareceram em Paris seguindo seus preceitos.

Na “exposição universal de 1900”, por exemplo, vinte casas de Alta costura

estavam presentes. Inicialmente, nada era muito organizado. Coleções ou desfiles com

data marcada inexistiam. Por volta de 1908-1910 já começaram a aparecer

coleções sazonais, apresentadas em desfiles, que eram espetáculos com

hora e data marcada nos salões das grandes casas. Essas coleções eram

apresentadas primeiro para os representantes estrangeiros e só duas ou três

semanas depois para os clientes. Mas só depois da guerra de 1914 que as

confecções começaram a se transformar em virtude de uma maior procura

pelos compradores profissionais estrangeiros. Devemos colocar também que

a indústria de luxo, representante da Alta Costura, teve um papel essencialnina-leen-mrs-william-talbert-wearing-striped-taffeta-mother-hubbard-with-deep-neckline

na economia francesa, especialmente no que se refere à exportação de

roupas. Com a Alta Costura surgiu uma moda hipercentralizada, elaborada

em Paris, mas que concomitantemente era seguida pelas mulheres up to

date de todo o mundo. Em suma, com a Alta Costura houve uma

uniformização mundial na moda. Sem dúvida, é possível dizer: Paris ditava a

moda.

A Alta Costura regularizou a moda mais do que a acelerou. Não

podemos afirmar que as mudanças rápidas da moda são contemporâneas

dessa época, mas o que parece ter sido instalado com a Alta Costura foi uma

normalização nas mudanças da moda. As renovações tornaram-se

imperativas, além de operadas por um grupo especializado e com data fixa.

Mas, a despeito disto, os costureiros faziam seus modelos sem saber quais

teriam sucesso. Em suma, a Alta Costura fazia moda porém desconhecia seu

destino.

“Programando a moda e no entanto incapaz de impôla,

concebendo-a inteiramente e oferecendo um leque de

escolhas, a Alta Costura inaugura um tipo de poder

maleável, sem injunção estrita, incorporando em seu

funcionamento os gostos imprevisíveis e diversificados do

público. “ (Lipovetsky 1989:97)

 

Apesar de a Alta Costura ter sido laboratório de novidades, parece

nina-leen-model-wearing-mother-of-pearl-satin-gown-with-roses-tucked-in-waist-by-balmainque estas se restringiam ao universo feminino. Isso não significa que não tenha havido nesta época uma moda masculina, mas nada comparável à

grandiosidade da Alta costura feminina. A moda masculina só foi

impulsionada em 1930, em Londres, onde, a partir de 1920, aconteceu uma

simplificação no vestuário feminino, pois a exibição do luxo tornou-se

sinônimo de mau gosto. Nessa fase, a moda tornou-se mais acessível e,

portanto, muito mais copiada. E a primeira revolução no vestuário da mulher

muitas vezes é tida como a “abolição” do uso de espartilhos, em 1909-1910,

por Poiret. Ele parece ter dado maior flexibilidade ao andar feminino, apesar

de ter mantido a fidelidade ao gosto da sofisticada ornamentação, ao

contrário de Chanel, que começou a vestir mulheres de alta sociedade com

jérsei, tecido mais simples e barato. Vale destacar que foi ela também a

primeira mulher a se impor nesse mercado, antes estritamente masculino.

Fica claro, portanto, que foi Chanel quem libertou as mulheres. Nessa época

era chique não parecer rico. Assim, a heterogeneidade do toalete

aristocrático foi substituída por uma moda mais homogênea. Surgiu a partir

de então uma sociedade comandada por um ideal da igualdade democrática.

Vale destacar que outros fatores, culturais e estéticos, além daquelesnina-leen-model-wearing-a-flowery-dress-while-peering-into-the-distance

ligados ao imaginário democrático, tiveram papel decisivo na revolução do

parecer feminino: Os esportes particularmente. A partir do final do séc XIX,

os trajes esportivos ganharam destaque, mas foi somente nos anos 1920

que a Alta Costura lançou-se nesse espaço. Em 1925, Patou,

contemporâneo de Chanel, abriu a loja Le Coin des sports fazendo um

desfile ao ar livre. Os esportes deram dignidade ao corpo, fazendo com que

passear de shorts, exibir pernas e barriga, fosse legitimado.

Surgiu nessa fase, anos 20, um novo tipo de mulher, mais atlética,

ousada e liberta. O novo ideal erótico era agora andrógino. As curvas foram

abandonadas e a mulher de fato se “libertou” dos espartilhos que as

aprisionavam. Porém, começaram a ser aprisionadas pelas dietas pela

primeira vez na vida. Os cabelos, que antes caíam pelos ombros, agora eram

vistos curtos evidenciando as linhas da cabeça. Surgiu a moda à la garçonne

(à moda dos meninos). As mulheres mais ousadas aproveitaram a chance, para não só usar roupas antes permitidas somente aos homens, mas

john-french-french-ii2também para fumar em público e reivindicar o direito de votar.

Parecia difícil, nessa época, diferenciar os meninos das meninas. Em

decorrência disso, na tentativa de amenizar as semelhanças entre os dois,

surgiram os batons vermelhos e as sobrancelhas realçadas com lápis, além

do bronzeado. A mulher começou a se expor mais a tudo e, principalmente,

ao sol: Apareceram as primeiras roupas de banho sem corte nas costas e o

conceito de chic: mulheres que tinham tempo e podiam ficar expostas ao sol.

Segundo Lipovetsky (1989), a moda teve um papel a desempenhar

junto à mulher: Ajudá-la a ser. O que podemos traduzir assim: a Alta Costura

iniciou um processo de psicologização da moda. Mas o que se quer dizer

com isso? A moda começou a criar modelos que caracterizavam emoções e

traços de caráter e assim as mulheres começaram, pela primeira vez, a

consumir modos de ser junto com as roupas criadas pelos modelistas.

Enquanto a mulher tornou-se uma simples consumidora, o costureiro

passou de artesão à artista soberano, cuja única obrigação era com a

inovação. Na segunda metade do séc XVIII houve uma valorização dosfashionable-woman-with-cigarette-holder-in-hand-wearing-long-double-strand-pearl-necklace

ofícios ligados à moda. Valorização que por sua vez não foi acompanhada de

uma transformação no trabalho: os modelistas eram glorificados, porém a

autonomia de criação não existia. Worth foi talvez o maior contribuinte para

essa revolução: ele destruiu a antiga lógica na qual a costureira estava

subordinada às clientes, instituindo uma lógica de maior independência dos

modelistas. Surgiu nessa fase o conceito de griffe, simbolizado por uma

etiqueta com o nome do modelista colada à roupa.

A ascensão social do povo de moda certamente não foi um fenômeno

isolado e sem precedentes. Durante os sécs XV e XVI, pintores, escultores e

outros começaram um movimento de reivindicação que é inseparável do

ideal igualitário dos valores modernos. O prestígio era agora menos um dado

que uma conquista e, com isso, os modistas sublimes não só faziam valer

que sua arte era tão nobre quanto a dos poetas, como começaram a se

comportar como os últimos. Podemos dizer assim que a era moderna, mais democrática, não só elevou a moda à posição de arte sublime como

valorizou as frivolidades. Se gente da moda ganhou prestígio, isso significa

que novas aspirações e uma nova sensibilidade para superficialidades

apareceram.

 

A nova moral individualista que dignificava a liberdade e fazia apologia

à felicidade encontrava-se no estatuto moderno da moda. Vale ressaltar que

john-french-madame-paulette-net-hat-c-19631foram esses novos valores morais que enobreceram a moda. A ideologia

individualista e a ascensão social da moda parecem ser inseparáveis e, sem

dúvida, como já foi visto, o final da Idade Média contribuiu para que o Novo

ganhasse direito de cidadania. Mas foi só no fim do séc XvIII, com o

Iluminismo, a partir das exigências revolucionárias de igualdade e liberdade,

que a moda pôde ser reconhecida e celebrada de forma artística.

Em suma, a Alta costura e a arte moderna estavam diretamente

relacionadas com a ideologia individualista. Parece que pela primeira vez na

história a primazia estava sendo colocada no indivíduo em detrimento do

todo coletivo. Dessa forma, não podemos ignorar a influência das correntes

da Arte Moderna na transformação democrática da moda após a Segunda

Grande Guerra.

A moda parece ter tirado muitas lições do projeto Modernista. As

roupas incorporaram a linguagem do art decô, com muitas listras e com

metades coloridas. O cubismo também exerceu influência com retângulos

grandes e coloridos. No final da década de 20, o cinema passou a influenciar

nina-leen-model-wearing-tweed-suit-fox-circle-and-brooch1diretamente a moda, com as atrizes usando suas próprias roupas. Começou

o glamour. Já o Surrealismo pode ser tido com a marca dos anos 30 . Moda

e arte se misturavam. As estrelas Hollywodianas eram a imagem da moda

dessa década. Desde a época áurea do cinema mudo, as telas forneciam

padrões e aspirações para mulheres de todo o mundo. O cinema era então

controlado por leis moralistas do código Hayes (um conjunto que vigorou até

os anos 50, ditando o que eram os bons costumes e o que era permitido

mostrar ao público nas telas). Nessa época as saias desceram novamente e

a cintura retomou seu lugar. O destaque saiu das pernas, que já tinham ganho liberdade antes negada pela rigidez do vestuário, e foi para as costas,

agora desnudas até embaixo. Assim como as saias, os cabelos também

cresceram e ganharam ondas e curvas. Foi a época da moda do frisado e

do platinum blonde. Os filmes introduziram também uma imagem mais

glamurosa da mulher mais velha e acabou criando mitos . Espalhou-se a

febre dos salões de beleza.

Nos anos 40, a guerra veio novamente como catalisadora das

mudanças da moda. Com a Segunda Grande Guerra, as roupas da época013

demonstravam com que força a moda refletia a atmosfera do momento, a

situação econômica e a política vigente. A mulher conquistou novos

posicionamentos e, com isso, a moda parece ter ficado mais simples e

austera. Devido aos poucos recursos, os produtores tentaram produzir

roupas boas, que assumiam agora uma função mais utilitária, prescindindo

de adornos. Como nos EUA as restrições eram menores do que na Europa,

os Americanos começaram a desenvolver uma moda totalmente nacional. Os

estilos começaram a se diferenciar: A imagem da femme fatale Européia

começou a ser substituída pelo ideal americano de garotas. As pin-ups eram

agora a verdadeira necessidade das tropas .

Foi nesta época também que as roupas recicladas se popularizaram e

os tecidos sintéticos ganharam destaque. Já existiam os tecidos fabricados

em laboratórios, como o nylon para fazer pára-quedas e roupas de aviador.

02548O presidente dos EUA foi ao Havaí e lançou uma moda que só foi ganhar

destaque mais tarde: bermuda e blusa florida. Tudo o que não era europeu

entrou em voga. A América do Sul parece ter virado moda e Carmem

Miranda ganhou projeção.

Depois da guerra, houve um retorno ao luxo, como uma nostalgia dos

“bons tempos”. Surgiu, em Fevereiro de 1947, o New look de Chistian Dior,

que teve status parecido com o pop star de nossos dias. A mulher voltou a

ser glamurosa e sofisticada depois das agruras da grande guerra. As roupas

voltaram a valorizar as curvas femininas e as saias dançantes voltaram junto

com o visual “Eduardino” nos homens. Mas foi somente depois das duas grandes guerras que o surgiu o “direito” à moda, mais do que um direito, a

moda se tornou imperativo categórico. Para resumir, a moda de cem anos

parece de fato ter adaptado a produção de moda aos ideais individualistas

democráticos. O prêt-à- porter começou a marcar presença no fim da guerra,

quando as roupas começaram a ser produzidas em série.

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Published in: on dezembro 8, 2008 at 1:38 am  Deixe um comentário  

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